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  03/03/2009 - Mercado imobiliário local deve evitar o pior da crise em 2009, dizem especialistas

A crise financeira internacional reconduziu o mercado imobiliário brasileiro aos trilhos da realidade. É esta, em outras palavras, a análise do assunto feita por João Crestana, o presidente do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo (Secovi-SP). "O ano de 2007 foi irracional, com um crescimento fora do normal, impulsionado pela euforia que havia tomado conta dos Estados Unidos e que estava chegando por aqui", conta. "E 2008 seguia o mesmo caminho, com uma expansão de quase 15% sobre o ano anterior, até que veio a crise." O efeito do vendaval soprado por Wall Street foi tamanho que o segmento - sempre um dos primeiros a sentir o peso das incertezas - terminou o ano com uma queda de 10,3% em relação a 2007, em volume de novas unidades residenciais vendidas. Mas a recuperação está à vista - ainda que não em termos financeiros, mas, pelo menos, de ajuste a um quadro consistente.

Para Crestana, este será um ano de queda em relação a 2008, mas de crescimento sobre 2006, quando a empolgação ainda não havia impulsionado exageradamente as projeções do setor. Uma performance como aquela que antecedeu a crise não deve voltar a acontecer, diz o presidente do Secovi, que é também presidente da Comissão da Indústria Imobiliária da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). "Em 2007, houve uma explosão de liquidez, e o mundo ficou se achando melhor do que realmente era. Aquele ano e os meses de 2008 anteriores à turbulência nunca mais se repetirão." A boa notícia é que um retorno à realidade pré-euforia pode representar a volta à linha de crescimento sustentável que se desenhou entre 2001 e 2006. Nesse período, surgiram novas linhas de crédito e investimentos externos, e o emprego e a renda aumentaram. Num contexto assim favorável, o setor cresceu entre 5% e 15% ao ano. Em 2007, com a chegada da euforia, o salto foi de 22,6% em novas unidades residenciais comercializadas (de 28.324 para 36.615, base que caiu para 32.847 no ano passado).

Ultrapassar 2006 não é tarefa tão ambiciosa, já que os números daquele ano são menores que os do biênio seguinte. Mas 2006 se tornou uma meta porque, como o ano passado contou com oito meses de ótimo desempenho, repeti-lo é pouco provável. Além disso, se aproximar de 2007 é missão considerada impossível. Os dados usados por Crestana são relativos a São Paulo, mas ele lembra que o mercado paulista responde por algo entre 30% e 40% do nacional, segundo estimativa do departamento de Economia e Estatística do Secovi-SP. Conforme a entidade, números similares refletem a realidade nacional. O presidente da CBIC, Paulo Safady Simão, também reconhece que este não será um ano fácil para a área imobiliária, mas prefere não fazer uma previsão. "Haverá uma redução do nível de atividade. Estamos esperando o final do primeiro trimestre para fazer uma avaliação."

Já para a indústria da construção de modo geral, na opinião de Simão, o ano não deve ser tão ruim, uma vez que o setor foi escolhido pelo governo com uma das alavancas de combate à crise. "Haverá crescimento, embora menor que o de 2008, que foi de 9%", diz, novamente sem estimar números. Ainda que tenha terminado o ano de 2008 em queda, o mercado imobiliário experimentou uma inédita explosão na aplicação da caderneta de poupança em produção e aquisição de imóveis. Ao todo, os recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), segundo o Secovi, foram de quase 30 bilhões de reais - dois terços dos quais datam do período de janeiro a agosto. Em 2003, somaram menos de 3 bilhões de reais, valor que saltou a mais de 9 bilhões em 2006 e a 18 bilhões em 2007. Essa expansão saciou boa parte da necessidade imobiliária da classe média, que costuma fazer uso do mecanismo da poupança para financiar imóveis.

Crestana acredita que o valor do SBPE seja um pouco menor neste ano, e que o caminho do segmento passe agora por classes mais populares e pelo FGTS. O ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, já anunciou a liberação de um volume maior de recursos do FGTS para financiamento e investimento no setor habitacional em 2009, de 11,8 bilhões de reais. Destes, o financiamento a habitação popular terá 7,4 bilhões de reais. "O déficit brasileiro do setor de 7,2 milhões de famílias sem habitação", diz o presidente do Secovi-SP, citando números de 2007, desenvolvidos pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil de São Paulo (Sinduscon-SP) e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Está previsto para este mês o anúncio do lançamento do pacote do governo federal para a construção civil. O programa prevê a construção de 1 milhão de casas populares até 2010. Outra esperança de Simão, no que se refere à indústria de construção como um todo, está ligada à Copa do Mundo de 2014, que exigirá investimentos em infra-estrutura. "Isso tudo vai garantir para o país um movimento razoável".


Fonte: Veja

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